O comunismo

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Reconheço, há ausência

Sim, é real

Mas, um não sei o que, diz-me que irás entrar triunfante, lindo, de armadura, com o dragão morto na mão

Como alguém que faz uma surpresa e que de maneira sádica se delicia com o espanto do outro

Sim, reconheço, há ausência

É real

Mas esse cheiro, das damas, da noite, parece anunciar o encontro, o foder

Irás surgir, assim, do nada

(Vazio)

Fico a olhar a porta… E o estalo da madeira me faz acreditar que és tu

É festa do corpo!

Beijo na boca

Beijo de quem está prometida

Beijo de puta comunista, que fode pelo bem comum

Que não quer mercadoria

Apenas uma noite bem dormida

Aside

Eu, acostumada a perder coisas – chaves, documentos, grampos, pinças, pessoas…

Achei, quando já estava esquecida

minha identidade, no Livro dos Prazeres.

(Foto: Francesca Woodman)

(Foto: Francesca Woodman)

Adaptações literárias: Milton Hatoum

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Guilherme Coelho (Foto: Maria Camargo)

Esse texto é um pouco antigo, mas como isso aqui anda meio parado acho válida a postagem. A ideia de publicar este meu texto veio, no último domingo, depois de ler a coluna do Elias Pinto no jornal Diário do Pará, que tem a literatura como tema. Elias pediu ao escritor Miltom Hatoum (manaura que já venceu o prêmio Portugal Telecom) que fizesse uma pequena lista com seus livros brasileiros favoritos. Eu amei a publicação, pois o Hatoum é, sem dúvida, um escritor que amo e que foi muito importante na minha formação. Aí lembrei que, algum tempo atrás, tinha feito esse texto para o site Cinemacord, abordando as adaptações dos livros dele para o cinema. Foi uma delícia entrevista com ele e com a equipe de filmagem!

O texto está todinho na íntegra.

P.S: o Cinemacord é um site, claro, sobre cinema muito legal, feito por uma galera linda de Brasília!

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Um dia, lendo um ensaio do Jorge Luis Borges, Do Culto dos Livros, guardei a seguinte frase: “um livro, qualquer livro, é para nós um objeto sagrado”. Sagrado, pois, nele, nós (generalizando minha opinião) vivemos e antecipamos experiências, criamos relações de identidade e nos entregamos a um prazer secreto. Neste mesmo texto, lembro-me de uma frase de Marllamé; dizia-se que o mundo só existe para chegar a um livro. Assim, esta fonte de histórias nos apresenta um universo fabuloso, capaz de fascinar leitores apaixonados e inspirar outras linguagens como o cinema, algo comum de acontecer.

Um exemplo atual deste diálogo entre literatura e cinema são alguns projetos que vêm aí, baseados em três obras do escritor manauara Milton Hatoum. A informação de que elas seriam “transcriadas”, termo usado pelo autor, causou-me certa euforia como leitora de seus romances e apreciadora do cinema. Pensei quão desafiador deve ser passar para a película as fantásticas paisagens nortistas – rios, calor, sestas nas redes –, as personagens e narrativas complexas. Tal odisseia está a cargo dos diretores Guilherme Coelho (Fala Tu), responsável pela adaptação de Órfãos do Eldorado (meu preferido dentre os três), Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), na direção de Relato de um Certo Oriente e Luiz Fernando Carvalho (Lavoura Arcaica), que tem engatilhado o projeto de uma minissérie baseada em Dois Irmãos.

Os incumbidos têm o aval de Milton, que diz confiar nestes profissionais da mesma maneira que confia no trabalho de um tradutor. Mas, apesar de ser um fio condutor das produções, ele não espera a cópia fiel de seus escritos, uma vez que são formas de artes distintas, e sim o aproveitamento do essencial de cada livro.

Na hora de buscar essa essência, Marcelo diz que um ponto de questionamento surge quando chega o momento de transcrever em imagens passagens magníficas do livro sem recorrer à palavra. Aí entram elementos cinematográficos: trilha sonora, fotografia, direção de arte, elementos usados na construção emocional das personagens. “Se é essencial e tocante, essa avaliação fica para o espectador. Da minha parte digo que é construído com muita verdade”.

Para os que não sabem, as tramas de Hatoum são ambientadas, principalmente, no norte do país, com referências à cultura árabe. Foi esse hibridismo cultural da Amazônia e a abordagem da memória como forma de dar sentido à existência que fisgaram o olhar de Marcelo Gomes. Ele irá utilizar neste roteiro o Ponto de Vista (POV) cinematográfico para recompor as lembranças da família e a narrativa em off. Estes pontos de vista irão se cruzar, “mas sem completar a narrativa em definitivo e sim deixando lacunas para serem imaginadas pelo próprio espectador. Como já dizia o escritor Ernest Hemingway, uma narrativa deve ser como um iceberg que o que se vê é sempre menos do que fica abaixo da água e a parte submersa é que confere intensidade, mistério, força e significação ao que aparece na superfície”.

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Dias no Norte (Foto: Maria Camargo)

Já Guilherme vê em Órfãos do Eldorado “um clima mítico, fortemente amazônico e universal. Uma história de dissipação, desolação, mas também de amor. Atualmente, acho que o meu maior desafio é fazer um filme que traga um pouco destes sentimentos e desta energia às pessoas, e não, necessariamente, contar a história do livro como ela foi escrita… É claro, a literatura é algo intransponível. Os jogos com a língua portuguesa, o ritmo das frases, a arrumação do texto, isso não se transpõe. Mas tem que se inspirar nesta arte do escritor para tentar transpor o impacto disso.”

Livro vs Filme

A diretora do Festival da Adaptação, Carolina Benjamim, conta que no momento em que a sétima arte incorporou a função de contar histórias, valeu-se muito da literatura, pois o cinema ainda não tinha prestígio na sociedade e as fontes literárias imprimiam uma espécie de “selo de qualidade”. No começo do século 20, enquanto de um lado Kafka e Joyce desafiavam estruturas narrativas, o cinema ainda tentava encontrar uma linguagem própria.

Para ela, hoje, o cenário é outro e tudo pode ser fonte de inspiração para bons roteiros; e se as adaptações literárias permanecem em voga é porque a literatura também aprendeu com o cinema e continua sendo uma boa fonte de inspiração para os cineastas.

No entanto, não podemos achar que o livro já é um roteiro pronto. Essa é uma noção enganosa de acordo com a roteirista Maria Camargo, parceira dos diretores nos três projetos. “A vivência é muito diferente. Hitchcock dizia que era bom adaptar ‘livro ruim’. Nesse caso, ele estava falando do livro que tinha uma trama muito clara, onde essa era a questão e não a experiência literária. A experiência literária é impossível de ser transposta pro audiovisual. Você pode criar outra experiência que seja tão rica quanto, mas vai ser sempre diferente da experiência do leitor, não tenha dúvida”.

Ação

Os filmes ainda não começaram a ser rodados, mas há uma previsão para que algumas filmagens comecem ainda neste ano. Algumas locações já foram visitadas. Recentemente, Marcelo Gomes, Guilherme Coelho, Maria Camargo, Milton Hatoum e profissionais das equipes técnicas fizeram uma viagem, na qual conheceram rios e cidades dos Estados do Amazonas e Pará. Lá, puderam imergir no cenário amazônico com uma cultura pulsante e, infelizmente, muitas vezes esquecida pelo resto do Brasil.

Indicações de Milton Hatoum

  • Livro e filme: Morte em Veneza

Autor: Thomas Mann
Diretor: Luchino Visconti

  • Livro e filme: Noites Brancas

Autor: Dostoiévski

Diretor: Lucchino Visconti

  • Livro e filme: Vidas Secas

Autor: Graciliano Ramos
Diretor: Nelson Pereira dos Santos.

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Milton Hatoum (à esq.) e Marcelo Gomes (à dir.)

Do registro indistrutível da memória

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Sagas da família, álbuns de família, histórias que os avós contam sempre foram coisas muito caras para mim. Sempre procuro algo nesse cheiro de passado, por puro encanto; uma necessidade de me perceber naquelas pessoas. Esse diálogo com a minha memória até hoje é essencial para a construção do que sou, e aos poucos vou tecendo um elo entre os “eus” antigos e os presentes. Essa introdução justifica o interesse em escrever sobre a obra da Marjane Satrapi, nas quais vejo os retratos de pessoas que não conheci, mas que adquiri. Agora, deixemos de lado minhas enrolações e vamos falar de quadrinhos.

ImagePor causa de meu hobby mofado, assim que tive contato com a obra de Satrapi, senti uma identificação imediata com a abordagem da quadrinista que mistura História, histórias de vida e um resgate de suas experiências, pois a narrativa nada mais é do que contar memórias, reais ou criadas.
A memória pode surgir daquilo que adquirimos seja por experiências próprias ou pelo contato com outros; é a manifestação do que está arquivado em nós. Essa célula, parte do que somos, pode se manifestar de diversas maneiras, e a autora as manifestou por meio de seus belos e sensíveis quadrinhos, a partir de acontecimentos-chave, na História do Irã, que se confundem com a rotina privada da família Satrapi. Se você está achando esse texto meloso, a intenção é essa.

Talvez a obra de Marjane comunique tanto por trabalhar com sentimentos presentes nas consciências coletivas de muitas pessoas. Apesar de trabalhar mais propriamente a realidade iraniana; conflitos sociais, repressão, retratos de governos autoritários, conflitos familiares, imigração e questões existenciais são temas que estão presentes na vida de várias nações. Além disso, em toda a sua obra essas questões ‘macro’ são mostradas pela perspectiva privada, da convivência familiar. Podemos perceber e entender o comportamento daquela realidade pelas conversas das mulheres, enquanto tomam seus chás, pelas relações amorosas, pela necessidade de liberdade, pela relação entre pais e filhos, pelo papel da mulher naquela sociedade etc.
Em Persépolis encontramos uma obra mais profunda, com elementos que nos passam tanta verdade que é difícil não se sentir sensibilizado com aquilo, em algumas passagens. Contudo, em outras histórias, com um recorte mais específico, como Frango com Ameixas e Bordados, encontramos situações mais esmiuçadas. Essas relações entre quatro paredes fazem ciram um imaginário emocional, capaz de catalisar uma identificação com todas as experiências de Marjane e fazendo com que o leitor se encontre, muitas vezes, com suas próprias memórias familiares (pelo menos no meu caso).
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Em Bordados vi isso quando encontrava pontos de semelhança com aquela muralha de mulheres, que sempre me rodeou, falando sobre sexo, virgindade, aflições e política, e eu sentia que estava ‘ventilando o coração’ junto com as tias, avó e as amigas das avós de Marjane. Talvez essa ligação entre leitor e narrativa aconteça em cima de espaços e tempos que não conseguimos definir ou localizar, uma vez que nossas memórias são construídas entre emaranhados de lembranças e vivências de terceiros. De acordo com Halbwachs, “sempre levamos em nós um certo número de pessoas inconfundíveis” e de histórias inconfundíveis, e isso acaba, de alguma maneira, ficando inscrito em nós. Por mais que essas lembranças pertençam à autora, são construídas e apoiadas pela coletividade, ou seja, dentro de nossas cabecinhas. Dessa maneira, cada quadradinho se eterniza não só no registro material – livro – mas no registro indestrutível – a memória.
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DayTripper

Nas últimas páginas de DayTripper, quadrinho dos gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, o texto da página final, espécie de epílogo, assinado por Moon diz o seguinte: “o difícil foi criar um mundo que você SENTISSE ser real. Cada referência, cada foto, cada cor e cada personagem, tudo foi construído de forma a reproduzir sentimentos. A sensação de que você está vivo, alegre, solitário, amedrontado ou apaixonado”. Tal declaração sintetiza a proposta de DayTripper; criar algo que, com certeza, vai nos perturbar, no bom sentido.

O leitor irá se deparar com a trajetória de Brás de Oliva Domingos, um escritor de obituários, mas que almeja ser um grande literato, assim como seu pai, conhecido autor de romances. A princípio, pode-se imaginar, pela profissão do personagem principal, que a narrativa estará voltada a temas fúnebres. Contudo a morte será apenas um dos recortes.

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Como o título sugere, acompanhamos um viajante diário, que tem como destino o cotidiano, as relações humanas. “A gente usa a morte na história para enfatizar a vida. A gente fez isso na história: refletir a vida pelo personagem; momentos corriqueiros e também especiais. Eu acho que isso é o efeito da história nas pessoas, faz as pessoas, através dessa reflexão da vida dos personagens, pensarem na própria vida”, explica Fábio. É um compêndio de contações de histórias sobre o primeiro beijo, as relações familiares, o amor, o sucesso profissional, a amizade e, claro, a questão que rege a existência: quando a morte chegará?  “O que aconteceria se eu morresse naquela hora? Qual teria sido o significado da sua vida? Viver teve alguma importância?” Essas foram fagulhas iniciais para pensar, escrever e desenhar o livro com personagens inspirados, principalmente, em referências sentimentais vividas pelos autores.

Fábio e Gabriel tiveram contato com a linguagem de HQs ainda na infância, como muitos meninos de sua geração, mas a “brincadeira” não ficou só como coisa de criança.  Mais tarde, vislumbraram contar suas próprias histórias nos quadrinhos. E a autonomia autoral não poderia excluir as influências de Mauricio de Sousa, o pai da Turma da Mônica, e ainda: revista Mad, super-heróis, Wiil Eisner, Laerte e outros. A dupla também cita algumas inspirações literárias, como Machado de Assis, Guimarães Rosa, as histórias de Sherlock Holmes e o mundo de Jorge Amado. “Eu [Fábio] lembro quando estávamos lendo Capitães da Areia. A gente ainda era moleque, na época, e adorávamos a ideia daqueles meninos, em Salvador, que eram os heróis da história e ao mesmo tempo meio delinquentes… Mas, o jeito que o Jorge Amado escrevia fazia você querer fazer parte daquela gangue, participar, ser amigo do Pedro Bala. Então, a gente incorporou essa coisa de criar um cenário e personagens que façam o leitor querer participar daquilo. Tentamos fazer isso nos quadrinhos”, abordando temas universais “sobre o relacionamento entre as pessoas, os sentimentos, e sobre essa coisa de estar sempre descobrindo coisas novas e lugares novos”.

Neste rol de propostas que fogem do corriqueiro, visualizamos, também, a ocorrência de uma estrutura narrativa pouco convencional, pois no jogo da escrita, Fábio Moon e Gabriel Bá brincam com a relação de tempo e espaço, categorias essenciais à compreensão mais direta. A narrativa é estruturada em torno do personagem Brás, que em cada capítulo, tem a importância de sua existência colocada em questão, em confronto com a alegoria da morte. Brás pode morrer em um capítulo e estar vivo no próximo; ser um homem de 32 anos e depois um menino de 11. As experiências vividas por ele, seja em lugares ou momentos distintos, sempre levarão à interpretação acerca da importância dos eventos de vida para a humanidade.

Projeção

O primeiro lançamento de DayTripper foi, no ano de 2009, nos Estados Unidos, pela Vertigo, selo da respeitada DC Comics (casa dos super-heróis Batman e Superman) e logo alcançou visibilidade. Chegou ao Brasil em 2011, quando foi distribuído no mercado nacional pela Panini Books e encabeçou listas de prêmios como o Eisner Awards, principal prêmio do segmento, por melhor minissérie; HQ Mix, como destaque internacional e também está listado na recente publicação 1001 Comics You Must Read Before You Die (1001 quadrinhos que você tem que ler antes de morrer), editado pelo crítico Paul Gravett.

Trabalhos anteriores, realizados pelos autores, em parceria ou individualmente, já tinham conquistado reconhecimento, mas confessam DayTripper foi um trabalho especial. “É uma história nossa, completa; que a gente escreveu e desenhou, que o foco ficou mais na gente. Solidificou o nosso nome e nossa presença como autores de quadrinhos. Isso é bem bacana. Nas Convenções que a gente tem ido, estamos sendo convidados em função do DayTripper; na Bolívia,  Angola,  Peru ou em Portugal. A gente também recebe isso de um jeito diferente. Alguém diz pra mim, do outro lado do mundo, que adorou a história, que se identificou com o personagem… Isso é muito legal e era algo que até então a gente não tinha”.

O merecido destaque que Gabriel Bá e Fábio Moon vêm recebendo, com prêmios no Brasil e exterior, é fruto de anos de dedicação e trabalho. Das primeiras edições do fanzine 10 Pãezinhos (feito pelos gêmeos no final dos anos 1990) até a consagração com Daytripper, os irmãos publicaram por uma série de editoras (como as americanas Image Comics e Dark Horse), desenhando gêneros tão diversos quanto super-heróis, romances históricos e quadrinhos autorais (nos quais desenvolveram especialmente seus roteiros). Entre os títulos pelos quais passaram estão os populares Umbrella Academy e Casanova. Pela adaptação de O alienista, de Machado de Assis, levaram o prêmio Jabuti em 2007.

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Rotina

Em um estúdio situado em São Paulo, eles trabalham com novos projetos: publicações para outros países e a adaptação do livro Dois Irmãos, do manauara Milton Hatoum, para a versão em quadrinhos.

Para a realização deste último trabalho, a dupla Fábio Moon e Gabriel Bá visitou Manaus, onde a trama de Hatoum é ambientada . Foram a fim de conhecer histórias de vidas, cheiros, sabores e lugares. O lançamento da história, que tem como personagens principais os irmãos Yaqub e Omar, está previsto para o ano de 2013.

Outros trabalhos estão disponíveis no blog http://10paezinhos.blog.uol.com.br/

(Day Tripper, Panini Livros, R$ 50, 260 páginas)

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O pertencer

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Michaela tinha uma face toda beleza e uma candura que a elevavam.

Mas o seu júbilo terminava por aí, pois os sentimentos que trazia, eram, demasiadamente, mortais: cheio de vícios e tentações, as quais ela sempre cedia, menos por leviandade e vileza, do que por querer ter todas as coisas do mundo dentro do peito.

E, apesar de ter também a capacidade de ser onipresente, era como se essa virtude de nada adiantasse, e nem sabia ao certo por que a possuía. Uma vez que não se sentia pertencente a lugar nenhum, era como se estivesse sempre suspensa no ar, feito pluma.
Isso a esmorecia. Nunca cabia em nada, nem no seu próprio quarto, nem em banheiro de dispensa.

Um dia, com vontade de se esconder em uma página de livro, leu um escrito do poeta francês Alain de Lille que dizia:

Deus é uma esfera inteligível cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma.

Descobriu que não era o único corpo a estar em todos e nenhum ponto. Descobriu que isso era coisa de seres celestes. Então voou e virou anjo.

El Viejo tupamaro

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Matéria publicada na Revista Piauí

 

Os amigos, os inimigos e o país envelhecido do uruguaio Pepe Mujica, um presidente fora do figurino

por CAROL PIRES

Sua única irmã havia morrido na quarta-feira. Era a caçula, tinha 71 anos. Uma semana depois, no dia 15 de agosto, ele era esperado no Hipódromo Nacional de Maroñas, em Montevidéu, e estava atrasado. Pepe Mujica, presidente do Uruguai, soube, logo que acordou, da morte da mãe de um companheiro de militância política e decidiu encontrá-lo antes da agenda oficial. Pela segunda vez em sete dias ia a um velório. Enquanto o esperávamos no hipódromo, María Minacapilli, sua secretária particular há dezoito anos, recebeu um telefonema. Havia acabado de morrer Renzo Pi Hugarte, um conhecido antropólogo uruguaio, vítima de uma parada cardíaca. María desligou o telefone com feição incrédula. Logo em seguida chegou Mujica. Cumprimentou os jornalistas com uma simpatia comedida antes de ser abordado pela secretária e tomar conhecimento da morte de seu grande amigo. Mujica tem 77 anos. É meses mais novo que Hugarte.

Naquela quarta-feira, Mujica deveria ir a Pan de Azúcar, uma cidade de pouco mais de 6 500 habitantes, a 100 quilômetros de Montevidéu, para lançar um programa que dá às crianças acesso a um curso de língua estrangeira em seus laptops. Hoje, no Uruguai, todos os 300 mil alunos da rede pública têm um computador pessoal doado pelo governo. O presidente, porém, trocou de agenda na tarde anterior. No hipódromo, firmou um convênio para um programa de capacitação de jovens.

Pepe Mujica é um personagem que caberia tanto em um conto gauchesco quanto em um romance sobre a esquerda armada. Foi militante da guerrilha urbana Tupamaros, levou seis tiros, ficou quinze anos preso, onze deles em uma solitária, onde chegou a beber a própria urina para não morrer de sede. Disputou a primeira eleição aos 59 anos e nunca mais perdeu – foi senador reeleito e, há dois anos e meio, é presidente do Uruguai.

Mujica foi descoberto pelos jovens do continente depois de anunciar, em junho, que o Uruguai poderia legalizar o comércio da maconha. Outra imagem muito compartilhada nas redes sociais é o de um político buena onda, alto astral, personagem de uma simpática reportagem do jornal El Mundo, da Espanha, que o chama de “o presidente mais pobre do mundo”. Um artigo na revista britânica Monocle disse que ele é “o melhor presidente do mundo” e “o herói não reconhecido da América Latina”. Mujica mora numa chácara chamada La Puebla, nos arredores de Montevidéu, numa casa de um quarto com teto de zinco. Doa 90% do seu salário de presidente, equivalente a 25 mil reais. O único bem em seu nome é um Fusca azul de 1987. No site da Presidência uruguaia declara como profissão oficial: “chacareiro”.

Mas não era o Mujica buena onda que governava o Uruguai no começo de agosto. Era inverno, Montevidéu estava fria e gris. O tempo chuvoso estava em sintonia com o humor do presidente. Ele passou toda a cerimônia no hipódromo olhando o vazio, com o cotovelo apoiado na mesa e o queixo apoiado na mão. O dedo indicador tapava-lhe a boca, como quem pede silêncio. Comeu dois biscoitos, espremeu limão no chá e o bebeu. Estava triste.

Ao anunciar que a cerimônia estava para ser encerrada, o mediador perguntou se Mujica gostaria de fazer “alguma reflexão”. Depois de alguns segundos em silêncio, foi o que ele fez: uma reflexão. Não cumprimentou os excelentíssimos presentes, como em geral fazem os políticos, nem discursou sobre os feitos e os projetos do governo. Apenas se aproximou do microfone e falou sobre como a sociedade seria melhor se as empresas desenvolvessem “inteligência social”.

Um homem que não tinha uniforme nem credencial – o mesmo que havia chegado dirigindo o carro oficial da Presidência, um Corsa Sedan prata – avisou à imprensa que Mujica não iria se pronunciar. O presidente, que vestia um blazer cinza e um suéter verde-musgo puído, sentou-se no banco ao lado do motorista. Deixou a porta aberta, o que pareceu ser um código para que os repórteres se aproximassem. Dois temas estavam na pauta nacional naqueles dias: o aumento da criminalidade e uma disputa diplomática – mais uma – com a Argentina.

O Uruguai é o segundo menor país da América do Sul, o menos corrupto (segundo a ONG Transparência Internacional) e o mais seguro para se viver. Ainda assim, os índices crescentes de violência são o problema que mais preocupa a população. Neste ano houve 211 assassinatos no país. O número pode parecer risível: é quase a mesma quantidade de pessoas mortas por dia no Brasil. Mas já é muito superior aos 183 registradosem 2011. A violência doméstica também é motivo de inquietação. Foram 9 325 registros em 2011 inteiro e 12 004 neste ano, até agora. Sentado no carro, Mujica falou sobre a perda de valores familiares, mas disse que um psiquiatra poderia analisar melhor o assunto. “Ser presidente não nos dá credencial para saber de tudo.”

A próxima pergunta foi sobre política comercial e ele respondeu com um ditado: não se deve colocar todos os ovos numa cesta só. “É mais fácil vender para os vizinhos, que estão perto. Mas, bem… temos que sacudir a modorra”, disse. Referia-se ao protecionismo argentino enfrentado pelo Uruguai, que vive da exportação de carne, soja, lã e derivados do leite. Antes da terceira pergunta, o motorista amea-çou arrancar e Mujica fechou a porta. Nos dias seguintes, a frase dos ovos foi destacada em vários sites de notícia uruguaios e chegou à capa de uma revista semanal.

 

epe Mujica não mede palavras, fala palavrões, comete erros gramaticais, usa expressões que as novas gerações já não entendem. É comum que se valha de metáforas da vida no campo para explicar sua visão de governo. Pelo menos uma vez teve que se desculpar pela sinceridade. Durante a campanha à Presidência, foi lançado um livro chamado Pepe: Colóquios, no qual ele diz ao jornalista Alfredo García que os Kirchner eram “peronistas delinquentes”, o ex-presidente Carlos Menem, um “mafioso e ladrão”, e os argentinos, “histéricos, loucos e paranoicos”.

Ele nunca mais foi tão duro com os Kirchner. É até paciente demais, na opinião de alguns uruguaios. O seu antecessor, Tabaré Vázquez, também da Frente Ampla – a mesma coalizão de esquerda de Mujica –, passou o governo brigando com Néstor Kirchner, então presidente argentino, por causa da instalação de uma fábrica de celulose perto da cidade uruguaia de Fray Bentos, na beira do rio Uruguai, divisa entre os dois países. Os argentinos alegavam que a fábrica iria poluir o rio e tentaram embargá-la, levando o caso à Corte Internacional de Justiça. O troco veio quando Kirchner depois foi indicado para a Secretaria-Geral da União de Nações Sul-Americanas: Vázquez vetou o nome dele.

Na contramão, Mujica retirou o veto ao assumir a Presidência (e Kirchner assumiu o cargo, que exercia quando morreu em 2010). Tem tratado Cristina Kirchner com cortesia, apesar de os países estarem outra vez em uma disputa envolvendo o rio Uruguai. O imbróglio dessa vez está no canal Martín García, que precisa ser dragado para permitir a passagem de navios maiores. A obra custará 50 milhões de dólares, precisa ser decidida e paga por ambos os países, mas interessa muito mais ao Uruguai, já que o canal dá acesso ao porto uruguaio de Nueva Palmira. “O que vou fazer, furar o olho dela?”, respondeu Mujica quando pressionado a ser mais duro com a mandatária argentina. Ele diz que de vez em quando não se importa em “engolir sapos e cobras” pela paz na vizinhança.

Mujica se declara um pragmático e justifica-se lembrando que o Uruguai perdeu todas as vezes em que brigou com a Argentina. Mas a paciência excessiva com o vizinho corroeu parte de sua popularidade. O escritor uruguaio Tomás Linn, colunista da revista Búsqueda, comentou: “Mujica anda tão mal quanto Vázquez na relação com os argentinos, mas quer ser amigo. Vázquez foi mais duro. Com um ou com outro, perdemos igual. Então, pelo menos que não deixe os Kirchner conduzirem a relação como se o Uruguai fosse uma província argentina, porque nada irrita mais os uruguaios do que isso.”

 

histórica a sensação do Uruguai de estar imprensado pelos gigantes Brasil e Argentina – de um século a outro, passou de região de disputa fronteiriça entre dois impérios, o português e o espanhol, a Estado-tampão. É um “algodão entre dois cristais”, como disse John Ponsonby, um ministro britânico mandado em missões diplomáticas ao estuário do rio da Prata na primeira metade do século XIX. O país, além de ser menor que o Rio Grande do Sul, tem população pequena (há dez anos mantém-se na faixa de 3 milhões) e envelhecida. São 19% os que têm mais de 60 anos (no Brasil são 11%). Soma-se ao cenário a alta emigração de jovens, em busca de empregos no exterior.

Os quadros políticos do Uruguai também carecem de renovação. As principais figuras da oposição hoje são ex-presidentes ou herdeiros de famílias que se revezavam no poder antes de a Frente Ampla chegar à Presidência, em 2005. Até quatro décadas atrás, o país era bipartidário. Havia o Partido Colorado e o Nacional ou Blanco – ambos abrigam grupos de orientação centrista e de direita, sendo os colorados originalmente ligados à elite comercial urbana e os blancos aos grandes fazendeiros. Fundados em 1836, os dois estão entre os partidos mais antigos do mundo. O Partido Trabalhista inglês, por exemplo, é de 1900. A Frente Ampla só surgiu em 1971 e abriga todo o espectro de esquerda, de comunistas a social-democratas.

Tabaré Vázquez foi o primeiro presidente frente-amplista. Oncologista que, mesmo na Presidência, nunca deixou de atender seus pacientes às terças-feiras, Vázquez é mais popular que Mujica. No Uruguai, o mandato dura cinco anos, não há reeleição, e ele é o mais cotado para ser candidato em 2014. Se a eleição fosse hoje, ganharia dos candidatos da oposição, que devem ser os senadores Jorge Larrañaga, pelos blancos, e Pedro Bordaberry, pelos colorados. Este último é filho de Juan María Bordaberry, o presidente que comandou o golpe de Estado de 1973 e morreu no ano passado. Já Larrañaga foi candidato a vice na chapa de Luis Alberto Lacalle quando Mujica foi eleito, no final de 2009.

 

uis Lacalle é um homem hiperativo, de ar aristocrático. Ele me recebeu numa tarde de agosto em seu gabinete no Senado, onde mantém na parede uma foto do avô, Luis Alberto de Herrera, o principal caudilho do Partido Blanco na primeira metade do século passado. Apontou onde eu deveria me sentar e pediu que a entrevista fosse gravada porque anotações “are not reliable”. Lacalle foi presidente num momento de predomínio neoliberal no continente, quando Fernando Collor presidia o Brasil e Carlos Menem, a Argentina. De Collor, disse: “Era um menino bonito, mas ignorante.” Os três, mais o presidente paraguaio Andrés Rodríguez, assinaram o Tratado de Assunção, que sacramentou a criação do Mercosul.

Em meia hora de entrevista, Lacalle criticou Mujica por não ter voz de comando. Disse que o presidente não consegue executar promessas mesmo tendo maioria no Parlamento, e que as iniciativas que põe em prática são clientelistas. “Tem 100 mil pessoas ganhando salário sem trabalhar. Dão o dinheiro e não pedem nada em troca, se os filhos vão à escola ou não, não importa. É um mensalão, mas um mensalão dos pobres”, disse, batendo as mãos em estalo. O programa, na verdade, exige que as famílias que recebem a ajuda mantenham os filhos na escola. São 412 mil crianças e adolescentes beneficiados pela Asignación Familiar, um correspondente do Bolsa Família, criado no governo de Vázquez.

Na maior parte do tempo, o senador olhava para as paredes ou para o chão. Em determinado instante, enquanto falava, enfiou o dedo indicador entre meus dedos dos pés por uma fenda do sapato. Ignorei o gesto. Ele riu, logo retraiu a mão e prosseguiu: “Vázquez é uma pessoa mais séria, mais como um social-democrata francês. Mujica é um homem mais radical. Inventou um personagem que é mais importante que a pessoa, o personagem Pepe, um personagem folklore”, explicou, com sotaque inglês. Mujica “passa do limite quando vai a uma cúpula política com sapatos velhos”, diz ele. “É uma grosseria.”

Semanas antes, o presidente havia feito uma viagem bate-volta ao Brasil para encontrar Hugo Chávez, Cristina Kirchner e Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. O encontro oficializou a entrada da Venezuela no Mercosul depois que Fernando Lugo foi destituído da Presidência do Paraguai pelo Senado e o país, único que ainda não tinha aprovado a inclusão venezuelana, foi suspenso do bloco por desrespeito à democracia. No dia seguinte, o jornal O Globo trouxe na capa uma foto cuja legenda anunciava um momento de descontração dos três mandatários, surpresos com o estado dos calçados de José Mujica.

Antes de sair de casa, ele tinha comentado com a mulher, a senadora Lucía Topolansky: “E eu que vou ter que me portar hoje com aquelas duas senhoras.” Ainda assim, não escolheu sapatos melhores que as botinas de couro marrom surrado. No avião, comentou com os assessores: “Esses não são os melhores sapatos para uma cúpula, mas eles me deixam confortável.” Quem esteve com ele no Planalto diz que não houve comentário sobre os sapatos, mas, na hora em que os presidentes posaram, havia um papel no chão apontando onde cada um deveria ficar. Todos olhavam para baixo buscando seus lugares e a foto foi feita. Dilma, Cristina e Chávez podem não ter notado os sapatos, mas a oposição uruguaia viu e não gostou.

Em outros tempos, Mujica se preocupava ainda menos com a aparência. Quando era deputado e senador, ia para o Congresso com botas de plástico sujas de terra. Trabalhava na plantação de manhã cedo e chegava ao Parlamento com terra nas unhas, pilotando sua moto Vespa ou o Fusca 1987. O estilo desleixado, alheio a qualquer solenidade, foi ganhando a atenção dos jornalistas e enfurecendo a oposição, conforme Mujica crescia politicamente. Quando foi candidato a vice na chapa de Lacalle, Jorge Larrañaga afirmou que o adversário, se eleito, governaria “debaixo de uma parreira, com dois vira-latas que o avisarão quando os ministros chegarem”. Lacalle também se referiu à casa do agora presidente como um “casebre”.

 

u o convidei para ir tomar um café com a gente, mas ele não quis”, diverte-se Lucía Topolansky, mulher de Mujica, falando de Lacalle. Ela e Mujica vivem juntos desde 1985, mas casaram-se apenas em 2005, sem festas, na própria casa. Lucía tem 68 anos e parece muito sintonizada com o marido: além de nunca discordarem na política, usam o mesmo cabelo branco curto e roupas simples. Ela escolhe sapatos baixos, não põe brincos nem pinta as unhas. A novela política dos dois começa com a militância no Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, quando queriam acabar com o capitalismo no Uruguai, e chega ao auge quando ela, senadora mais votada em 2009, toma o juramento dele como presidente eleito.

Lucía e Mujica tiveram outros companheiros na militância clandestina. O dela foi morto. O primeiro encontro dos dois – “Ana” e “Facundo” – durou pouco. Mujica já conhecia María Elia, irmã gêmea de Lucía, mas só foi apresentado à futura mulher três meses antes de ser preso. Era 1971. Ambos fugiram da prisão – ele em uma fuga que entrou para o Livro dos Recordes pela quantidade de fugitivos envolvidos (111); ela com outras 37 companheiras pelo esgoto –, mas foram capturados pouco depois. “Naquele momento vivia-se cada dia, vivíamos nessa filosofia. Tinha que desfrutar o momento e ponto”, recordou Lucía em seu gabinete no Senado, onde conta com apenas duas funcionárias e tem as paredes decoradas com fotos de Mujica, Che Guevara e Carlos Gardel. Só em 1985, com a Lei de Anistia, os dois se reencontraram. Viveram com a mãe de Mujica na casa onde ele havia crescido em Rincón del Cerro, a poucos minutos da chácara que ele e Lucía depois compraram. Hoje vivem com Manuela, uma vira-lata que só tem três patas.

Durante muito tempo, contam os vizinhos, a casa era de adobe (um tijolo de argila) com teto de palha. Lucía e Mujica só fizeram uma reforma e colocaram o teto de zinco quando ele foi eleito senador e os dois já estavam cansados demais para trocar a palha de tempos em tempos. A chácara fica no bairro Paso de la Arena, na saída oeste de Montevidéu, um local de sítios e de pequena atividade industrial, agrícola e granjeira.

Ironicamente, a casa de Mujica fica no Camino Colorado, atrás de árvores altas que a escondem dos olhares de fora. O caminho até a porta é de barro e apenas dois policiais vigiavam o local numa manhã de agosto. Em 2010, no Encontro Internacional de Murgas – uma espécie de bloco carnavalesco popular no Uruguai e na Argentina –, o grupo A Contramano venceu com um enredo e uma música que parodiavam a história de dois guardas que precisam se virar para proteger um presidente que sai sem avisar para fazer pequenas compras. Certa vez, Mujica foi com a cadela comprar uma nova tampa para o vaso sanitário. Acabou discursando de improviso (com a tampa na mão) para uma equipe de jogadores de futebol da terceira divisão que o avistou na mercearia. Outro grupo de murga, chamado Agarrate Catalina, o homenageou com uma canção que diz: “É preciso cortar-lhe o bigode, os pelos da orelha, do nariz e da nuca/ Bote fogo nas alpargatas/ e deem-lhe uma cachorrinha que pelo menos tenha as quatro patas.”

 

ujica não quis viver na residência oficial, o palácio de Suárez y Reyes. Mas ele e a chácara tiveram que passar por modificações. O presidente foi barbeado e obrigado a usar blazer – gravata, jamais! Na casa, foram instaladas câmeras de vigilância e aberto um caminho alternativo que liga os fundos do terreno à rodovia. Lucía e Mujica, porém, não vivem sozinhos. Outras três famílias moram no sítio, em lotes doados pelo casal. Duas delas eles conheceram na militância política. A terceira passava por dificuldades financeiras e eles resolveram ajudar. No testamento do casal, consta que as outras famílias podem seguir vivendo ali depois da morte deles até quando precisarem, mas que o terreno será destinado a uma escola agrícola que estão organizando.

Em sua casa, o casal presidencial vive apenas com a cachorra Manuela, que ficou aleijada de uma das patas depois de ser atropelada pelo próprio Mujica, quando dirigia um pequeno trator agrícola. “Houve companheiros que tiveram filhos. Eu sempre optei por ter liberdade e não tive naquela época. Depois, não vieram”, diz a senadora, procurando se adiantar às perguntas: “Mas a casa sempre tem criança.” Na mesma construção, mas com portas de entrada independentes, vive o casal abrigado quando tinha problemas financeiros. Depois que passaram a viver na chácara de Lucía e Mujica, juntaram dinheiro e abriram uma pequena fábrica de garrafas de vidro. Ao falar das conquistas dos amigos, Lucía contou que a terceira filha do casal nasceu no sítio. Nesse momento, começou a chorar. “Ela tem 9 anos, é musicista. Toca violão.”

Na esquina do CaminoColorado há uma mercearia e açougue, onde Mujica faz compras. Os donos, Roberto e Anabel, dois uruguaios de pele e olhos claríssimos, são vizinhos do casal presidencial há dezenove anos. “Não posso me colocar no lugar da Lucía porque ela é mulher e eu sou homem, mas me afeiçoei a ela porque uma das coisas que ficou como consequência da tortura na ditadura foi não poder ter filhos. Depois de tudo o que eles sofreram, perdoar seus algozes e construir um país juntos? Isso fica além do que eu posso entender.” Roberto falava de Pedro Bordaberry, o filho do ditador uruguaio. Ao assumir a Presidência, Mujica convidou a oposição a ocupar cargos de direção em tribunais, como o de Contas e o Eleitoral, e em empresas públicas. Há três meses, Bordaberry mandou que seus correligionários deixassem os cargos depois de Lucía Topolansky dizer que, se a oposição estava insatisfeita, que renunciasse.

“Eles sempre olham para o futuro”, completa a mulher, Anabel. Quando engravidou pela primeira vez, Anabel reuniu os vizinhos para um jantar e contou a novidade. Pouco depois, sofreu um aborto espontâneo. Era 1994, antes de Mujica ser deputado. “Quando eu perdi o bebê, Mujica passou aí na frente com a moto e estacionou. Pensei que ia comprar algo, mas ele só veio e me deu um abraço.” Os dois só chamam Mujica de El Viejo [o velho].

No Carnaval, Roberto e Anabel passaram um fim de semana com Mujica e Lucía na casa de veraneio da Presidência, em Colônia do Sacramento, a uma hora de Montevidéu. A Estância Anchorena foi doada ao Uruguai por dom Aarón de Anchorena, de uma das famílias mais tradicionais da Argentina, com a condição de que o presidente da República a usasse pelo menos quarenta dias do ano. Mujica e Lucía Topolansky cumprem o acordo, mas não dormem na casa principal. Preferem uma suíte em um prédio anexo, reservado aos funcionários. Não se sentiam confortáveis em uma “casa-museu”, disse Lucía.

 Negro Nievas, um enfermeiro e torneiro mecânico aposentado, vizinho de Mujica, também mostrou um álbum de fotos que tirou com a família na estância, num fim de semana em que ele, a mulher e os filhos participaram de um churrasco com o casal presidencial.

Nievas dirige um Ford Falcon de 1975 azul e tem trinta cachorros em casa. Disse que todos tinham nomes, mas só lembrou até o 18o. No momento em que chegamos para ver o álbum, outro vira-lata desconhecido estava na frente da casa e ele também o colocou para dentro. Nievas tem 73 anos e é amigo de Mujica desde os 7. Os dois eram vizinhos e estudaram na mesma escola. Quando perguntei sobre a infância dos dois, contou que a mãe de Mujica tinha um quiosque, do lado da escola, onde vendia material escolar e flores. Depois, começou a chorar. Emocionou-se várias vezes ao falar do amigo. Ele ainda guarda a carteirinha do Partido Comunista e tem em casa todos os livros já escritos sobre o presidente, com dedicatórias do próprio, todas terminadas assim: “Com razão e coração, Mujica.”

 

 um romântico”, disse sobre Mujica o cientista político Adolfo Garcé, da Universidad de la República, estudioso da história dos tupamaros. Garcé enxerga muitas semelhanças entre a lógica guerrilheira e o governo de Mujica. A primeira é o pragmatismo: “Os tupamaros eram cama-leões. Se mudava o entorno, eles mudavam.” No governo, Mujica “é igual”, ele diz. O presidente também segue obcecado com as pessoas que não têm onde viver. Ele vendeu prédios públicos, entre eles uma residência oficial em Punta del Este, para construir casas populares, e chegou a cogitar abrir o palácio Suárez y Reyes para os sem-teto se refugiarem durante o inverno. É para o plano de moradia do governo, chamado “Juntos”, que Mujica doa quase todo o seu salário.

Garcé aponta outra tática comum à guerrilha: quando o presidente introduz um novo assunto polêmico no debate para desviar a atenção de temas desfavoráveis ao governo. Quando Mujica e os outros presos políticos se preparavam para fugir de Punta Carretas, em setembro de 1971, os tupamaros que estavam em liberdade fizeram uma ação do outro lado da cidade. A polícia correu para lá e o presídio ficou desguarnecido. O cientista político faz a comparação: ao propor a regulação pelo Estado da produção e do comércio da maconha, Mujica desvia o foco do debate sobre o problema de segurança pública.

 

governo estima que 300 mil pes-soas – 10% da população – já experimentaram maconha ou a usam com alguma frequência. O porte e o consumo da droga não são criminalizados no país. O projeto de legalizar seu comércio foi mandado ao Congresso dentro de um pacote de dezesseis medidas para combater a violência. A legalização daria ao Estado controle sobre a venda e permitiria arrecadar recursos para desenvolver programas de tratamento dos viciados. Na Câmara, outros projetos defendem a legalização do autocultivo da maconha, mas ainda não há acordo sobre a quantidade que seria permitida.

A proposta do governo caiu na burocracia do processo legislativo e tramita lentamente, após a imensa repercussão inicial. Para a oposição e parte do eleitorado, ficou a impressão de que é mais uma medida anunciada e não cumprida por Mujica. “Ele fala sem preparação prévia, lança temas que notoriamente lhe ocorreram naquele momento. Não tem uma equipe para ensaiar com ele, então fala algo como proposta de governo e, quando não há quem o siga ou ele percebe que é um erro, volta atrás”, disse o ex-presidente Luis Lacalle.

 Simpatizante do Partido Nacional e comentarista político na rádio El Espectador, Graziano Pascale foi o primeiro jornalista, ainda em 2007, a dizer que Pepe Mujica poderia ser candidato pela Frente Ampla. “As pessoas se irritaram comigo. Mujica não tinha os dentes, parecia um absurdo.” Para Pascale, a eleição de Mujica não significa que os uruguaios passaram a gostar de candidatos como ele, mais parecidos com o povo. Ele seria um caso único. “Mujica é esse tio velho e louco que toda família tem. Elegê-lo presidente foi uma loucura coletiva. A figura pública dele não combina com a vida normal do uruguaio.”

 

osé Alberto Mujica Cordano é o primeiro filho do casamento de Demetrio Mujica e Lucy Cordano. O pai morreu cedo e a irmã mais nova, María, nasceu com limitações intelectuais. Foi ele quem sempre deu suporte à mãe, ajudando-a a plantar copos-de-leite em Rincón del Cerro, hoje distrito de Paso de la Arena, onde está sua chácara. Lucy também recebia ajuda financeira do pai, um imigrante italiano que tinha uma propriedade de 5 hectares em Carmelo, região vizinha à estância presidencial de Anchorena.

No ensino médio, Mujica se preparava para o curso de direito (que nunca terminou) quando começou a se inclinar para a esquerda. Ao jornalista Miguel Ángel Campodónico, no livro Mujica, ele diz: “Naquela época eu era meio anarquista. A militância estudantil de alguma maneira fez com que eu fosse me politizando. Sigo sendo anarquista, acho que sou bastante libertário, isso é inquestionável.” Nessa época, conheceu dois grandes amigos: Renzo Pi Hugarte, o antropólogo que morreu na segunda semana de agosto, e Enrique Erro, que viria a ser ministro de Indústria e Trabalho e introduziu Mujica na política. Ele era do Partido Nacional e foi nele que Mujica começou a militar.

O jovem Pepe Mujica devia ser o único morador de Paso de la Arena que assinava o Marcha, um semanário influente entre os anos 40 e 70 que tinha o escritor Juan Carlos Onetti como secretário de redação. Aprendeu a gostar da terra com o avô materno. Saiu dos catorze anos de prisão com a ideia fixa de ter uma chácara. O pai – também de Carmelo, uma área muito influenciada por Buenos Aires (ainda hoje o grosso do turismo em Colônia do Sacramento é de portenhos) – era um nacionalista peronista. Mujica lembra-se de ter visto a imagem de Juan Domingo Perón na primeira vez em que assistiu à televisão.

 

Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T) surgiu em1965 reunindo anarquistas e socialistas de várias correntes inspirados pela Revolução Cubana de Che Guevara e dos irmãos Castro em 1959. Quando aderiu ao grupo, Mujica era ligado à União Popular, organização de esquerda criada por dissidentes do Partido Nacional. Em 1970, os tupamaros eram 5 mil. Os golpes capitaneados pelos militares pipocavam no continente – em 1964 no Brasil, em 1966 na Argentina. O socialista Salvador Allende, no Chile, seria derrubado em setembro de 1973, apenas dois meses depois do golpe de Estado no Uruguai.

Os tupamaros são mais controvertidos porque, diferentemente de grupos armados brasileiros que surgiram durante a ditadura, eles pegaram em armas, sequestraram e mataram ainda durante a democracia. Questionado se já matou alguém, Mujica respondeu que tinha má pontaria. O golpe cívico-militar no Uruguai, com a dissolução do Congresso por Bordaberry, só aconteceria oito anos depois da criação do movimento Tupamaros. Os guerrilheiros já estavam desarticulados e seus principais líderes, entre eles Mujica, presos como “reféns” do governo. Se a guerrilha fizesse mais ataques, eles poderiam ser mortos. “Fomos um produto social”, diz Lucía Topolansky. “Mas se o Lacalle te conta a história dos tupamaros dirá que tudo era sol e primavera quando caiu um raio no país.”

Anahit Aharonian, uma militante uruguaia que esteve presa com Lucía, diz que ainda tem alma tupamara. “Ser tupamaro é ser alguém que continua lutando pela justiça social. E mudança não é dar moedinhas às pessoas. Não quero capitalismo bom, não é possível humanizar o capitalismo. Estamos contra o capitalismo.” Anahit é agrônoma e me recebeu em sua casa, longe do centro de Montevidéu, usando brincos de penas feitos por índios bolivianos. Ela é uma das esquerdistas decepcionadas com o governo de Mujica. “Pensei que ele faria um governo à esquerda de Vázquez, mas ele seguiu as mesmas políticas do antecessor”, disse.

Ela contou que, quando Mujica era ministro da Agricultura de Vázquez, morreu um companheiro tupamaro e ele chegou ao cemitério no momento em que os presentes criticavam a promoção de um militar denunciado como torturador. Quando Mujica se aproximou, todos fizeram silêncio. “Eu disse: ‘Sabe por que esse silêncio? Porque estamos falando de vocês, que promoveram um militar que nós denunciamos.’” Segundo Anahit, Mujica perguntou: “E você ainda acredita na justiça dos homens?”

A militante acha incongruente que Mujica se vista modestamente, viva de maneira simples em uma chácara pregando contra o consumo, mas incentive o investimento estrangeiro no Uruguai. Coautora de um livro com depoimentos de ex-presas políticas, chamado De la Desmemória al Desolvido [Da Desmemória ao Desesquecimento], ela também critica a mulher de Mujica por não aceitar falar do passado. “Com Lucía nunca pudemos trabalhar temas de memória. Ela sempre dizia: Não me encham o saco com isso.” O presidente chegou a defender prisão domiciliar para os poucos militares presos por crimes cometidos na ditadura porque já estão muito velhos.

No que Anahit vê como traição e o sociólogo Adolfo Garcé como pragmatismo, Roberto e Anabel, os vizinhos de Mujica, enxergam a capacidade de esquecer o passado em nome de um projeto. “Um dia Lucía me perguntou se eu podia levar El Viejo de madrugada na rodovia, no dia seguinte. Às 5h30 cheguei lá e ele já estava acordado. Ele me contou que ia à inauguração de uma safra de arroz de uns fazendeiros ligados à direita. Era deputado nessa época. E me disse: ‘Sabe o que é? Nessa inauguração vai muita gente, de donos de terra a peões, e eu agora sou um representante nacional.’” Roberto diz que não seria capaz de perdoar e por isso vê em Mujica uma qualidade superior.

 

abaré Vázquez queria que Danilo Astori, seu ministro de Economia, fosse o candidato da Frente Ampla à sua sucessão. Mujica tinha sido o senador mais votado do partido, brigou e ganhou a indicação contra Astori (53% a 38%). A Frente Ampla abriga diversos partidos de esquerda e tenta contemplar a todos. O Movimento de Participação Popular (MPP), de Mujica, é o mais forte, mas compôs com Danilo Astori, do social-democrata Assembleia Uruguai, a chapa presidencial. Vázquez estava no Partido Socialista ao ser eleito, mas saiu em 2008 após ter vetado uma lei de descriminalização do aborto que havia sido aprovada pelo Legislativo. No fim de setembro, o Congresso estava prestes a aprovar legislação semelhante e Lucía Topolansky disse que Mujica não a vetará.

“Foi muito duro ir contra Tabaré Vázquez naquele momento”, diz a senadora Constanza Moreira. “Mas éramos muitos os que torcíamos pelo Mujica, uma opção mais à esquerda e menos tecnocrata.” Constanza diz que foi preciso convencer Mujica a candidatar-se. Ele achava que estava muito velho para disputar uma eleição. “Um dia estávamos no gabinete de Mujica, falando da política e das responsabilidades que recairiam sobre ele se fosse presidente, e ele falou que aquela era uma escolha trágica. Falamos sobre a incapacidade de decidir o próprio destino quando se é uma pessoa comprometida como ele”, disse Constanza.

Durante a campanha, Lucía fazia as vezes de secretária e assessora de imprensa. Os amigos ajudavam a selecionar com quem Mujica deveria falar ou não, depois de ter passado anos recebendo jornalistas não convidados na chácara. Dizia aos repórteres que, se não fosse eleito, não voltaria a ser senador, iria apenas dedicar-se a plantar acelgas. Ele fez uma campanha prometendo um governo mais alinhado ao ex-presidente Lula do que ao venezuelano Hugo Chávez. Lula, de quem é amigo, é seu modelo político. Apesar de tentar desvincular sua imagem de Chávez, também mantém boa relação com ele, e foi um dos apoiadores da entrada da Venezuela no Mercosul. Na eleição, Mujica recebeu 47,96% dos votos no primeiro turno e, no segundo, venceu Luis Lacalle com 1 197 638 votos, 52,39% do total.

Como os partidos são mais importantes que as personalidades no Uruguai, Vázquez volta a ser a opção lógica para a Frente Ampla em 2014 porque é a figura mais bem avaliada da coligação. A alternativa seria Daniel Astori, o vice de Mujica, responsável pela bem-sucedida política econômica do país. Os salários subiram 36,6% nos últimos sete anos, graças a um crescimento econômico médio de 6,4%. O desemprego bateu recorde mínimo neste ano: 5,3%. Agora 13,7% dos uruguaios vivem abaixo da linha da pobreza, uma redução de cinco pontos em um ano. Quase não há analfabetismo no Uruguai e todas as crianças estão na escola. Nenhum dos países do Mercosul tem indicadores sociais tão bons.

Ainda assim, as pesquisas de opinião mais recentes mostram que 39% dos uruguaios aprovam o governo de Mujica e 49% simpatizam com a figura do presidente. No início do governo, ele tinha quase 20% a mais de simpatia e aprovação. As brigas com a Argentina, a impressão de que o presidente divaga muito e executa pouco, índices crescentes de evasão escolar, a violência e a falência da Pluna – a única empresa aérea uruguaia, controlada pelo governo em parceria com um fundo argentino – são alguns dos motivos que explicam a queda.

 

a quinta-feira, um dia depois da morte de Pi Hugarte, houve uma manifestação em frente à chácara de Mujica – a primeira desde o início do governo. Seis sindicalistas esperavam ser recebidos pelo presidente para denunciar a demissão de 180 funcionários de uma empresa agrícola em plena colheita. No dia seguinte, uma sexta-feira, o Camino Colorado era vigiado por duas caminhonetes da polícia e um carro à paisana, além dos habituais guardas. Os sindicalistas acabaram desfazendo o acampamento, mas o dia terminou com a notícia da morte de outra amiga de Mujica, Lilí Lerena de Seregni, aos 96 anos. Ela era viúva do general Líber Seregni, fundador da Frente Ampla. Mujica compareceu ao quarto velório em dez dias. Em um deles, comentou com um servidor do cerimonial: “Melhor eu já ir embora, porque daqui a pouco aprendo o caminho…”

Mujica gosta de filosofar. É apaixonado por antropologia e botânica. Costuma falar à nação sobre a natureza humana e a “fragilidade da nossa casca civilizatória”. “As pessoas têm que ter em conta que estar vivo é um milagre. Viemos do silêncio mineral e voltaremos ao silêncio mineral”, disse recentemente. Explica ter escolhido ser pobre para ser rico, e sempre fala sobre a prisão que é pagar prestações para ter bens materiais. “Os velhos pensadores – Epicuro, Sêneca, inclusive os aimarás – definiam: pobre não é o que tem pouco, mas sim o que necessita infinitamente muito e deseja mais e mais”, discursou na Conferência Rio+20. É uma ironia que, no terreno onde ficava Punta Carretas, um dos presídios onde Mujica esteve, funcione hoje um shopping center.

Entre os nove antigos dirigentes tupamaros que eram considerados “reféns” durante a ditadura, diz-se que dois saíram mais debilitados da prisão, depois da Lei de Anistia: Pepe Mujica e Henry Engler. Engler chegou a ser diagnosticado com psicose delirante, mas em 2002 apresentou, em Estocolmo, na Conferência Mundial sobre o Alzheimer, o trabalho mais importante no estudo da doença desde que Alois Alzheimer a descobriu. Ele foi o primeiro a detectar no cérebro a proteína amiloide, que destrói os neurônios e causa a deterioração da memória.

Hoje com 65 anos e diretor do Centro Uruguayo de Imagenología Molecular, em Montevidéu, Engler respondeu por e-mail por que achava que ele e Mujica haviam chegado tão longe, depois de terem quase enlouquecido. “Na luta para superar a si mesmo, perdem-se os pensamentos de ódio e rancor e a solidariedade se transforma em uma forma de satisfação permanente. Creio que também se pode sobreviver pelo ódio, mas assim não se pode encontrar a felicidade”, disse. “Hoje somos loucos, mas loucos de sonhos.”

Perto do Natal do ano passado, Mujica visitou o hospital psiquiátrico Vilardebó e falou com os médicos e pacientes sobre seu momento de insanidade. Disse que, quando estava em um calabouço, ouvia ruídos, enlouqueceu. Atendido por uma psiquiatra, passou a receber uma quantidade de remédios que ele juntava e jogava fora. “Mas essa mulher me ajudou muito, porque conseguiu que me deixassem ler e escrever. Fazia anos que não lia nada nem podia escrever”, disse. Mujica contou que pediu livros de química para poder copiá-los e organizar os pensamentos. Assim recuperou a razão e pôde, ao sair em liberdade, voltar à política e chegar à Presidência: “E aqui estou, mais louco que antes.”

Não usei branco, no final do ano

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Há alguns dias, estava pensando sobre o que escrever, neste final de ano. Consultei as anotações espalhadas por aí. Foi então que, depois de assistir “Além da Estrada”, resolvi falar sobre viagens mentais.

Esse deslocamento, seja para longas distâncias, curtas distâncias ou ainda para lugar nenhum (no sentido material) é renovador, revelador e pode nos trazer “n” sensações. Viajar é um momento, no qual podemos ficar em um estado permanente de reflexão.

Vem aquela vontade de entrega. Se eu não tivesse reprovado nas provas de trânsito, seria lançaria como uma viajante, sairia da frente do vídeo e me aventuraria em algum pedaço de chão, mesmo que fosse só uma ida ali em Icoaraci, para tomar uma água de coco. É tão bom sentir essa quebra de amarras, nem que seja por 15 minutos, uma hora ou dois dias depois do filme; saber que ainda temos a capacidade de nos suspendermos na imaginação.

Enfim… Uma viagem seja ela imagética ou fatídica sempre vem em boa hora para nos trazer a calma ou o barulho que precisamos.

Trailer do filme

Um pouco mais sobre viagens e lugares

As cidades e os símbolos

Quem viaja sem saber o que esperar da cidade que encontrará ao final do caminho, pergunta-se como será o palácio real, a caserna, o moinho, o teatro, o bazar. Em cada cidade do império, os edifícios são diferentes e dispostos de maneiras diversas: mas, assim que o estrangeiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar em meio às cúpulas de pagode de claraboias e celeiros, seguindo o traçado de canais hortos depósitos de lixo, logo distingue quais são os palácios dos príncipes, quais são os templos dos grandes sacerdotes, a taberna, a prisão, a zona. Assim – dizem alguns – confirma-se a hipótese de que cada pessoa tem em mente uma cidade feita exclusivamente de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, preenchida pelas cidades particulares. (Italo Calvino, Cidades Invisíveis, p. 34, Companhia das Letras, 2002)

Aside

Duas paradas

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Quando nos referimos aos lugares pelos quais passamos sempre usamos os monumentos como referenciais simbólicos: Paris= Torre Eiffel; Rio de Janeiro=Cristo Redentor, Juazeiro= Estátua do Padre Cícero, cidadezinha em algum lugar do mundo= busto de alguém. Não tiro o mérito da arquitetura como representação da identidade. Contudo, o essencial, na minha percepção, está, principalmente, na língua/sotaque e nas pessoas que habitam determinado lugar. Com isso, não quero dizer que haja um determinismo geográfico, mas que a vida de um país, cidade de estrada, estado encontra sua riqueza em cada habitante e na experiência que vivenciamos naquele lugar.

Na orelha do livro As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino,encontrei algo de muito sentido: De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. Acho que por isso uma viagem é sempre um momento de renovação, de sair da casca; isso não é um privilégio concedido, somente, às borboletas.

Recentemente, estive em Jundiaí e São Paulo, por causa do trabalho. Nas vezes que encostava a cabeça no vidro, para fingir que estava dormindo, percebi que Jundiaí era a simpática Jundiaí, não por causa da coleta de lixo impecável, mas por causa da Dona Conceição:  a engraçadíssima motorista da nossa van, que carregava 15 mulheres de todo os Estados do Brasil. Eu só conheci, realmente, a cidade  por causa daquela mulher, que tinha uma cara de acolhedora de senhorinha; que tinha uma gargalhada assustadora ; e que dizia controlar o seu estrabismo, sem ajuda de nenhum médico.

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Dona Conceição bem no cantinho direito

Já, em São Paulo, fiquei só um dia; suficiente para dizer que “alguma coisa acontece no meu coração”. Primeiramente, a coisa que eu mais queria era entrar em um engarrafamento, ver o caos organizado. Consegui. O que me deixou com uma sensação de alívio diante da missão cumprida. Mas, a coisa mais Sampa foi escutar o motorista de táxi Marcelo Miguel. Ao chegar ao nosso destino, combinamos a nossa volta e ele disse:

– Vou assistir o jogo do Palmeiras em alguma padaria, quando vocês saírem me liguem.

A porta do carro fechou e eu ri.

O mar está no céu

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Um certo pintor vagava pelo mundo, em busca de inspiração

Já tinha passado por todas as cidades do Velho Mundo

Refez a rota de Marco Polo e viu dragões na China

Andou…

Até que chegou ao Brasil

Queria ver animais sem cabeça que cantavam o hino nacional

Mas nada lhe trazia a epifania tão desejada

Ainda em terras tupiniquins

Andou um pouco para o centro

Chegou a um lugar meio sertão, meio cidade

Com galhos de cimento e sem transeuntes

Ficou triste, por se sentir em um não-espaço

Descrente, como era, hesitou em pedir ajuda aos deuses, lá de cima

Mas, sem opções… Levantou a cabeça e viu o Céu Brasília

Desde então, voltou a ser pintor