Do registro indistrutível da memória

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Sagas da família, álbuns de família, histórias que os avós contam sempre foram coisas muito caras para mim. Sempre procuro algo nesse cheiro de passado, por puro encanto; uma necessidade de me perceber naquelas pessoas. Esse diálogo com a minha memória até hoje é essencial para a construção do que sou, e aos poucos vou tecendo um elo entre os “eus” antigos e os presentes. Essa introdução justifica o interesse em escrever sobre a obra da Marjane Satrapi, nas quais vejo os retratos de pessoas que não conheci, mas que adquiri. Agora, deixemos de lado minhas enrolações e vamos falar de quadrinhos.

ImagePor causa de meu hobby mofado, assim que tive contato com a obra de Satrapi, senti uma identificação imediata com a abordagem da quadrinista que mistura História, histórias de vida e um resgate de suas experiências, pois a narrativa nada mais é do que contar memórias, reais ou criadas.
A memória pode surgir daquilo que adquirimos seja por experiências próprias ou pelo contato com outros; é a manifestação do que está arquivado em nós. Essa célula, parte do que somos, pode se manifestar de diversas maneiras, e a autora as manifestou por meio de seus belos e sensíveis quadrinhos, a partir de acontecimentos-chave, na História do Irã, que se confundem com a rotina privada da família Satrapi. Se você está achando esse texto meloso, a intenção é essa.

Talvez a obra de Marjane comunique tanto por trabalhar com sentimentos presentes nas consciências coletivas de muitas pessoas. Apesar de trabalhar mais propriamente a realidade iraniana; conflitos sociais, repressão, retratos de governos autoritários, conflitos familiares, imigração e questões existenciais são temas que estão presentes na vida de várias nações. Além disso, em toda a sua obra essas questões ‘macro’ são mostradas pela perspectiva privada, da convivência familiar. Podemos perceber e entender o comportamento daquela realidade pelas conversas das mulheres, enquanto tomam seus chás, pelas relações amorosas, pela necessidade de liberdade, pela relação entre pais e filhos, pelo papel da mulher naquela sociedade etc.
Em Persépolis encontramos uma obra mais profunda, com elementos que nos passam tanta verdade que é difícil não se sentir sensibilizado com aquilo, em algumas passagens. Contudo, em outras histórias, com um recorte mais específico, como Frango com Ameixas e Bordados, encontramos situações mais esmiuçadas. Essas relações entre quatro paredes fazem ciram um imaginário emocional, capaz de catalisar uma identificação com todas as experiências de Marjane e fazendo com que o leitor se encontre, muitas vezes, com suas próprias memórias familiares (pelo menos no meu caso).
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Em Bordados vi isso quando encontrava pontos de semelhança com aquela muralha de mulheres, que sempre me rodeou, falando sobre sexo, virgindade, aflições e política, e eu sentia que estava ‘ventilando o coração’ junto com as tias, avó e as amigas das avós de Marjane. Talvez essa ligação entre leitor e narrativa aconteça em cima de espaços e tempos que não conseguimos definir ou localizar, uma vez que nossas memórias são construídas entre emaranhados de lembranças e vivências de terceiros. De acordo com Halbwachs, “sempre levamos em nós um certo número de pessoas inconfundíveis” e de histórias inconfundíveis, e isso acaba, de alguma maneira, ficando inscrito em nós. Por mais que essas lembranças pertençam à autora, são construídas e apoiadas pela coletividade, ou seja, dentro de nossas cabecinhas. Dessa maneira, cada quadradinho se eterniza não só no registro material – livro – mas no registro indestrutível – a memória.
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