Adaptações literárias: Milton Hatoum

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Guilherme Coelho (Foto: Maria Camargo)

Esse texto é um pouco antigo, mas como isso aqui anda meio parado acho válida a postagem. A ideia de publicar este meu texto veio, no último domingo, depois de ler a coluna do Elias Pinto no jornal Diário do Pará, que tem a literatura como tema. Elias pediu ao escritor Miltom Hatoum (manaura que já venceu o prêmio Portugal Telecom) que fizesse uma pequena lista com seus livros brasileiros favoritos. Eu amei a publicação, pois o Hatoum é, sem dúvida, um escritor que amo e que foi muito importante na minha formação. Aí lembrei que, algum tempo atrás, tinha feito esse texto para o site Cinemacord, abordando as adaptações dos livros dele para o cinema. Foi uma delícia entrevista com ele e com a equipe de filmagem!

O texto está todinho na íntegra.

P.S: o Cinemacord é um site, claro, sobre cinema muito legal, feito por uma galera linda de Brasília!

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Um dia, lendo um ensaio do Jorge Luis Borges, Do Culto dos Livros, guardei a seguinte frase: “um livro, qualquer livro, é para nós um objeto sagrado”. Sagrado, pois, nele, nós (generalizando minha opinião) vivemos e antecipamos experiências, criamos relações de identidade e nos entregamos a um prazer secreto. Neste mesmo texto, lembro-me de uma frase de Marllamé; dizia-se que o mundo só existe para chegar a um livro. Assim, esta fonte de histórias nos apresenta um universo fabuloso, capaz de fascinar leitores apaixonados e inspirar outras linguagens como o cinema, algo comum de acontecer.

Um exemplo atual deste diálogo entre literatura e cinema são alguns projetos que vêm aí, baseados em três obras do escritor manauara Milton Hatoum. A informação de que elas seriam “transcriadas”, termo usado pelo autor, causou-me certa euforia como leitora de seus romances e apreciadora do cinema. Pensei quão desafiador deve ser passar para a película as fantásticas paisagens nortistas – rios, calor, sestas nas redes –, as personagens e narrativas complexas. Tal odisseia está a cargo dos diretores Guilherme Coelho (Fala Tu), responsável pela adaptação de Órfãos do Eldorado (meu preferido dentre os três), Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), na direção de Relato de um Certo Oriente e Luiz Fernando Carvalho (Lavoura Arcaica), que tem engatilhado o projeto de uma minissérie baseada em Dois Irmãos.

Os incumbidos têm o aval de Milton, que diz confiar nestes profissionais da mesma maneira que confia no trabalho de um tradutor. Mas, apesar de ser um fio condutor das produções, ele não espera a cópia fiel de seus escritos, uma vez que são formas de artes distintas, e sim o aproveitamento do essencial de cada livro.

Na hora de buscar essa essência, Marcelo diz que um ponto de questionamento surge quando chega o momento de transcrever em imagens passagens magníficas do livro sem recorrer à palavra. Aí entram elementos cinematográficos: trilha sonora, fotografia, direção de arte, elementos usados na construção emocional das personagens. “Se é essencial e tocante, essa avaliação fica para o espectador. Da minha parte digo que é construído com muita verdade”.

Para os que não sabem, as tramas de Hatoum são ambientadas, principalmente, no norte do país, com referências à cultura árabe. Foi esse hibridismo cultural da Amazônia e a abordagem da memória como forma de dar sentido à existência que fisgaram o olhar de Marcelo Gomes. Ele irá utilizar neste roteiro o Ponto de Vista (POV) cinematográfico para recompor as lembranças da família e a narrativa em off. Estes pontos de vista irão se cruzar, “mas sem completar a narrativa em definitivo e sim deixando lacunas para serem imaginadas pelo próprio espectador. Como já dizia o escritor Ernest Hemingway, uma narrativa deve ser como um iceberg que o que se vê é sempre menos do que fica abaixo da água e a parte submersa é que confere intensidade, mistério, força e significação ao que aparece na superfície”.

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Dias no Norte (Foto: Maria Camargo)

Já Guilherme vê em Órfãos do Eldorado “um clima mítico, fortemente amazônico e universal. Uma história de dissipação, desolação, mas também de amor. Atualmente, acho que o meu maior desafio é fazer um filme que traga um pouco destes sentimentos e desta energia às pessoas, e não, necessariamente, contar a história do livro como ela foi escrita… É claro, a literatura é algo intransponível. Os jogos com a língua portuguesa, o ritmo das frases, a arrumação do texto, isso não se transpõe. Mas tem que se inspirar nesta arte do escritor para tentar transpor o impacto disso.”

Livro vs Filme

A diretora do Festival da Adaptação, Carolina Benjamim, conta que no momento em que a sétima arte incorporou a função de contar histórias, valeu-se muito da literatura, pois o cinema ainda não tinha prestígio na sociedade e as fontes literárias imprimiam uma espécie de “selo de qualidade”. No começo do século 20, enquanto de um lado Kafka e Joyce desafiavam estruturas narrativas, o cinema ainda tentava encontrar uma linguagem própria.

Para ela, hoje, o cenário é outro e tudo pode ser fonte de inspiração para bons roteiros; e se as adaptações literárias permanecem em voga é porque a literatura também aprendeu com o cinema e continua sendo uma boa fonte de inspiração para os cineastas.

No entanto, não podemos achar que o livro já é um roteiro pronto. Essa é uma noção enganosa de acordo com a roteirista Maria Camargo, parceira dos diretores nos três projetos. “A vivência é muito diferente. Hitchcock dizia que era bom adaptar ‘livro ruim’. Nesse caso, ele estava falando do livro que tinha uma trama muito clara, onde essa era a questão e não a experiência literária. A experiência literária é impossível de ser transposta pro audiovisual. Você pode criar outra experiência que seja tão rica quanto, mas vai ser sempre diferente da experiência do leitor, não tenha dúvida”.

Ação

Os filmes ainda não começaram a ser rodados, mas há uma previsão para que algumas filmagens comecem ainda neste ano. Algumas locações já foram visitadas. Recentemente, Marcelo Gomes, Guilherme Coelho, Maria Camargo, Milton Hatoum e profissionais das equipes técnicas fizeram uma viagem, na qual conheceram rios e cidades dos Estados do Amazonas e Pará. Lá, puderam imergir no cenário amazônico com uma cultura pulsante e, infelizmente, muitas vezes esquecida pelo resto do Brasil.

Indicações de Milton Hatoum

  • Livro e filme: Morte em Veneza

Autor: Thomas Mann
Diretor: Luchino Visconti

  • Livro e filme: Noites Brancas

Autor: Dostoiévski

Diretor: Lucchino Visconti

  • Livro e filme: Vidas Secas

Autor: Graciliano Ramos
Diretor: Nelson Pereira dos Santos.

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Milton Hatoum (à esq.) e Marcelo Gomes (à dir.)

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One thought on “Adaptações literárias: Milton Hatoum

  1. “Um dia, lendo um ensaio do Jorge Luis Borges, Do Culto dos Livros, guardei a seguinte frase: “um livro, qualquer livro, é para nós um objeto sagrado”.”

    Embora a postagem, de maneira geral, não seja apenas sobre o livro, mas sim da sua relação com o cinema, adorei essa parte destacada acima. Primeiro, porque é uma frase do Borges. Segundo, por falar do livro em si e seu poder. Já diria o Che: “Un pueblo que no sabe leer ni escribir, es un pueblo facil de engañar”. Livros são objetos sagrados, mas na ideia guevarista, me parecem armas.

    Enfim, gostei muito do seu blog. Se tiveres curiosidade, vos deixo o meu blog:http://umdevaneioreal.blogspot.com.br/.

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