Vizinhos invisíveis e o Mágico de Oz

 

Eu sempre fui “reclamona”, desde pequenina. Um defeito, mas quem está livre deles? E nas sessões de reclamação, minha pauta favorita discute o quanto o  prédio onde moro é barulhento. E lá vou eu,  de um lado para o outro, soltando muitos ‘éguas’ de indignação. Não estou errada, acreditem. Meu sono nunca passa das dez da manhã, apesar de ter colocado papel pardo no vidro da sacada. Isso porque, as conversas, barulhos, furadeiras e liquidificadores começam a operar muito cedo.

Contudo, estarei sendo injusta com minha vizinhança se disser que ela não me traz nenhum um tipo de alegria. Traz sim. São situações prosaicas que fazem eu me sentir uma transeunte, lembram-me da minha existência e, muitas vezes, até me tiram de um estado latente de solidão.

O edifício Curitiba, graças ao caos das construções em Belém, é cercado por dois prédios, muita gente e muitos varais. Moro no primeiro andar, e minha sacada fica ao lado dos dois menores, o que me coloca em uma situação estratégica para praticar meu “voyeurismo auditivo”.

Não sei o que seria da minha formação futebolística se não fossem aqueles dois garotos, adolescentes, que ficam noites conversando. Um deles,  na janela no prédio vizinho, o outro no terceiro andar do Curitiba. O recorde do par de moleques foi de três horas de conversa, separados somente por alguns metros; e juro que acompanhei o debate. Há quatro meses, passei a conhecer a posição de jogadores , seus nomes,  namorados,  segredos… Só fico chateada na hora em que escuto comentários agourentos desses vascaínos contra meu Fluminense.  Nessa hora, lembro o quanto vizinhos podem ser inconvenientes. Então,  vou tomar banho.

Mas sabe que até  me divirto com meus pequenos vizinhos? Já chego até a gostar deles. Diferente da garotinha do andar de cima,  que com seus  tamanquinhos de Dorothy nos acordam, aos domingos, lá pelas sete da manhã;  e batem com tanta força no chão (claro, bem  em cima, justamente, do meu quarto) que, da primeira vez, achei que os vizinhos de cima estivessem com o apartamento em obras. “Obras!!? Em pleno domingo!!? Não é proibido!?!”  Ativei o porteiro  e descobri quem eram os culpados. Atendeu a ligação pelo interfone uma mãe que pediu desculpas e explicou que “deu sapatinhos de salto para a filha de uns cinco anos,  que não quer mais tirá-los!!” Mas parece que naquele dia, a senhora conseguiu acabar com o desfile da menina. Parece-me que, com isso, ganhei uma inimiga. Agora, sempre que encontro esses sapatinhos no elevador, levo uma bela olhada de reprovação daqueles olhinhos verdes que me fazem baixar a cabeça. Espero que um dia possamos fazer as pazes.

Essa mesma oportunidade, certamente, não terei com o papagaio que morava no apartamento do prédio em frente ao meu. Como todos de sua espécie, à pobre ave só eram ensinadas palavras pornográficas, que ela  bradava todos os dias, duas vezes por dia, repetidas vezes. Sempre ao amanhecer, e nos finais de tarde,  quando me pegava pensando sobre o certo e o errado das coisas do mundo, lá vinha a criaturinha  dizer-me que a vida existia.  Quem gostava era minha mãe, que ia para a sacada e  lhe assoviava  ‘Somewhere over the rainbow’. Eu tinha que admitir que o pássaro parecia gostar daquilo,  pois era quando se calava, entortava a cabeça em direção ao nosso apartamento e ensaiava uma espécie de dança empoleirado em uma pequena gaiola que o obrigava a ficar o tempo todo curvado para baixo. “Coitado do animal”, pensava eu. Mas, ainda sim, minha indignação com aqueles gritos diários não era menor.

Um dia acordei, e não percebi o silêncio. Foi quando minha mãe chamou a atenção sobre o fato. Todos em minha casa fomos para a sacada e para nossa surpresa, os moradores do apartamento da frente haviam se mudado: tudo escuro, janelas fechadas e nada de gaiola e papagaio. Para nós, sobrou a visão de uma área de serviço completamente vazia e inóspita.

Um som de  clarinete vindo do apartamento ao lado chorou a  partida da avezinha verde e me acalentou pra dizer que eu ainda existo e meus vizinhos também.

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