O pertencer

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Michaela tinha uma face toda beleza e uma candura que a elevavam.

Mas o seu júbilo terminava por aí, pois os sentimentos que trazia, eram, demasiadamente, mortais: cheio de vícios e tentações, as quais ela sempre cedia, menos por leviandade e vileza, do que por querer ter todas as coisas do mundo dentro do peito.

E, apesar de ter também a capacidade de ser onipresente, era como se essa virtude de nada adiantasse, e nem sabia ao certo por que a possuía. Uma vez que não se sentia pertencente a lugar nenhum, era como se estivesse sempre suspensa no ar, feito pluma.
Isso a esmorecia. Nunca cabia em nada, nem no seu próprio quarto, nem em banheiro de dispensa.

Um dia, com vontade de se esconder em uma página de livro, leu um escrito do poeta francês Alain de Lille que dizia:

Deus é uma esfera inteligível cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma.

Descobriu que não era o único corpo a estar em todos e nenhum ponto. Descobriu que isso era coisa de seres celestes. Então voou e virou anjo.

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