O pertencer

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Michaela tinha uma face toda beleza e uma candura que a elevavam.

Mas o seu júbilo terminava por aí, pois os sentimentos que trazia, eram, demasiadamente, mortais: cheio de vícios e tentações, as quais ela sempre cedia, menos por leviandade e vileza, do que por querer ter todas as coisas do mundo dentro do peito.

E, apesar de ter também a capacidade de ser onipresente, era como se essa virtude de nada adiantasse, e nem sabia ao certo por que a possuía. Uma vez que não se sentia pertencente a lugar nenhum, era como se estivesse sempre suspensa no ar, feito pluma.
Isso a esmorecia. Nunca cabia em nada, nem no seu próprio quarto, nem em banheiro de dispensa.

Um dia, com vontade de se esconder em uma página de livro, leu um escrito do poeta francês Alain de Lille que dizia:

Deus é uma esfera inteligível cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma.

Descobriu que não era o único corpo a estar em todos e nenhum ponto. Descobriu que isso era coisa de seres celestes. Então voou e virou anjo.

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Aside

Duas paradas

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Quando nos referimos aos lugares pelos quais passamos sempre usamos os monumentos como referenciais simbólicos: Paris= Torre Eiffel; Rio de Janeiro=Cristo Redentor, Juazeiro= Estátua do Padre Cícero, cidadezinha em algum lugar do mundo= busto de alguém. Não tiro o mérito da arquitetura como representação da identidade. Contudo, o essencial, na minha percepção, está, principalmente, na língua/sotaque e nas pessoas que habitam determinado lugar. Com isso, não quero dizer que haja um determinismo geográfico, mas que a vida de um país, cidade de estrada, estado encontra sua riqueza em cada habitante e na experiência que vivenciamos naquele lugar.

Na orelha do livro As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino,encontrei algo de muito sentido: De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. Acho que por isso uma viagem é sempre um momento de renovação, de sair da casca; isso não é um privilégio concedido, somente, às borboletas.

Recentemente, estive em Jundiaí e São Paulo, por causa do trabalho. Nas vezes que encostava a cabeça no vidro, para fingir que estava dormindo, percebi que Jundiaí era a simpática Jundiaí, não por causa da coleta de lixo impecável, mas por causa da Dona Conceição:  a engraçadíssima motorista da nossa van, que carregava 15 mulheres de todo os Estados do Brasil. Eu só conheci, realmente, a cidade  por causa daquela mulher, que tinha uma cara de acolhedora de senhorinha; que tinha uma gargalhada assustadora ; e que dizia controlar o seu estrabismo, sem ajuda de nenhum médico.

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Dona Conceição bem no cantinho direito

Já, em São Paulo, fiquei só um dia; suficiente para dizer que “alguma coisa acontece no meu coração”. Primeiramente, a coisa que eu mais queria era entrar em um engarrafamento, ver o caos organizado. Consegui. O que me deixou com uma sensação de alívio diante da missão cumprida. Mas, a coisa mais Sampa foi escutar o motorista de táxi Marcelo Miguel. Ao chegar ao nosso destino, combinamos a nossa volta e ele disse:

– Vou assistir o jogo do Palmeiras em alguma padaria, quando vocês saírem me liguem.

A porta do carro fechou e eu ri.