Aside

Eu, acostumada a perder coisas – chaves, documentos, grampos, pinças, pessoas…

Achei, quando já estava esquecida

minha identidade, no Livro dos Prazeres.

(Foto: Francesca Woodman)

(Foto: Francesca Woodman)

Aside

Duas paradas

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Quando nos referimos aos lugares pelos quais passamos sempre usamos os monumentos como referenciais simbólicos: Paris= Torre Eiffel; Rio de Janeiro=Cristo Redentor, Juazeiro= Estátua do Padre Cícero, cidadezinha em algum lugar do mundo= busto de alguém. Não tiro o mérito da arquitetura como representação da identidade. Contudo, o essencial, na minha percepção, está, principalmente, na língua/sotaque e nas pessoas que habitam determinado lugar. Com isso, não quero dizer que haja um determinismo geográfico, mas que a vida de um país, cidade de estrada, estado encontra sua riqueza em cada habitante e na experiência que vivenciamos naquele lugar.

Na orelha do livro As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino,encontrei algo de muito sentido: De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. Acho que por isso uma viagem é sempre um momento de renovação, de sair da casca; isso não é um privilégio concedido, somente, às borboletas.

Recentemente, estive em Jundiaí e São Paulo, por causa do trabalho. Nas vezes que encostava a cabeça no vidro, para fingir que estava dormindo, percebi que Jundiaí era a simpática Jundiaí, não por causa da coleta de lixo impecável, mas por causa da Dona Conceição:  a engraçadíssima motorista da nossa van, que carregava 15 mulheres de todo os Estados do Brasil. Eu só conheci, realmente, a cidade  por causa daquela mulher, que tinha uma cara de acolhedora de senhorinha; que tinha uma gargalhada assustadora ; e que dizia controlar o seu estrabismo, sem ajuda de nenhum médico.

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Dona Conceição bem no cantinho direito

Já, em São Paulo, fiquei só um dia; suficiente para dizer que “alguma coisa acontece no meu coração”. Primeiramente, a coisa que eu mais queria era entrar em um engarrafamento, ver o caos organizado. Consegui. O que me deixou com uma sensação de alívio diante da missão cumprida. Mas, a coisa mais Sampa foi escutar o motorista de táxi Marcelo Miguel. Ao chegar ao nosso destino, combinamos a nossa volta e ele disse:

– Vou assistir o jogo do Palmeiras em alguma padaria, quando vocês saírem me liguem.

A porta do carro fechou e eu ri.